sábado, 14 de fevereiro de 2015

Minha poesia nua

Minha poesia não é
minha.
Talvez,
seja manha,
quando amanhece estranha.

E passa o dia
sem dar sinal.

Quando anoitece,
ela foge
e de madrugada,
reage,
como se quisesse conversa..

Minha poesia
não é pose,
nem rito..
Nem chega
a ser um grito.

Minha poesia não é posse.
No máximo,
um riso,
um espirro,
uma tosse.

Minha poesia
não é minha.
Minha poesia sua
de cansaço,
de ansiedade,
de saudade.

Minha poesia
sua
ao sol,
Minha poesia
sem sal.
Pelo menos,
ao coração,
não faz mal.


Um carnaval para sempre

Eu sou um menino. Tenho 12 anos.Num domingo de carnaval, logo pela manhã, meu pai me fala:
- meu filho, hoje vamos à rua à noite, ver o carnaval.
Até então, eu estava acostumado a ir com o meu pai à missa aos domingos (às sete ou às nove da manhã) e a velórios (sim, meu pai fazia questão de marcar presença, de cumprimentar os parentes, de cumprir o ritual das despedidas).De maneira, que o convite para ir ao carnaval me soa como a possibilidade de um programa diferente. Por volta das sete da noite, chegamos à Avenida Raul Soares. Em 1980, não há horário de verão.. A rua ganhou uns postes extras de iluminação, intercalados com postes, de onde pendem enfeites carnavalescos, de isopor, muito coloridos, impactantes.A calçada da avenida está tomada pelo público. Apenas uma corda separa os assistentes e a passarela do samba. Muitas crianças assentam no meio fio, ao pé dos pais ou dos avós. A primeira aparição de um bloco carnavalesco na minha vida é um acontecimento do qual nunca mais vou me esquecer: umas cinquenta pessoas, homens e mulheres, vestidas com túnicas brancas, grandes chapéus. Alguns foliões, com mamadeiras na mão, outros com chupeta na boca, alguns batendo lata, com pandeiros ou tamborins na mão. Era a Banda Branca. No ar, um cheiro, que eu não demoro muito a perceber que é cerveja. O gosto, vou sentir só alguns anos mais tarde. A seguir, sem muito intervalo, surgem na avenida, as mulinhas. São umas cinco. A fantasia é composta de homens enfiados numa geringonça, que imita o corpo de um jumento ou uma mula. Um enchimento de cada lado simula pernas e pés calçados com sapatos ou botas. O que dá a impressão de que realmente, os cavaleiros estão montados nas mulas e não "dentro" delas. As mulas são uma espécie de comissão de frente do cordão Flor do Abacate. Logo atrás das mulas, vem a nega maluca, uma personagem no estilo bonecões de Olinda. A nega maluca faz reverências à plateia, empina o peito, rodopia sem cessar pela avenida. O povo aplaude Dona Zica, que é quem comanda o bloco. E vêm os instrumentos de percussão, a velha guarda, as damas. O Flor do Abacate passa, eu observo a fisionomia de meu pai, ele me olha com ar de cumplicidade. Eu já sabia: o que estou vivendo chama-se felicidade. Mas, agora fogos anunciam a entrada da primeira escola de samba. Impossível não ficar de queixo caído com tanto brilho e tanto vermelho e branco. Abdalinha e Jorge Elias soltam a voz:
- O povo vem cantando, a Estrela vem surgindo, pedindo passagem, com o coração sorrindo...Viva o São Francisco, viva Iemanjá; viva a Estrela que brilha na Terra, no céu e no mar.
Diante de mim, passam a ala das baianas, a ala dos capoeiristas, mestre-sala e porta-bandeira, a bateria e os carros alegóricos. Neste ano, a Estrela trouxe uma cachoeira para representar o Rio São Francisco. Nesta noite, o mecanismo que iria fazer jorrar água de verdade não funciona. Ficou para a terça-feira, quando as escolas retornam à avenida. Mas, o domingo ainda reserva o desfile de mais uma escola de samba. Na comissão de frente, homens vestidos com um fraque verde, grandes cartolas pretas. A noite, agora, é toda verde e branca. Formigão, o puxador de samba, pega o microfone:
- Alô, minha nação verde e branco! Olhe o Pinguim aí, pisando firme na avenida!
O mundo do circo está todo ali: malabaristas, acrobatas, bailarinas, mágicos, bichos. Uma ala, em especial, me faz arregalar os olhos: é a ala dos palhaços. Samba no pé e coreografia bem marcada. Sou um menino de doze anos. Essas imagens não vão mais sair da minha cabeça. Volto pra casa cantando:: - "O palhaço trapalhão, chega fazendo caretas, piruetas pelo chão! O palhaço trapalhão, chega fazendo caretas, piruetas pelo chão!"
De vez em quando, os dois refrões se misturam: - Viva o São Francisco, viva Iemanjá, viva a Estrela, que brilha na Terra, no céu e no mar e o palhaço trapalhão, chega fazendo caretas, piruetas pelo chão.' Em 1980, em Manhumirim, é assim: o povo vem cantando, Banda Branca, Flor do Abacate, Estrela e Pinguim vêm surgindo, e eu fico pra sempre, com o coração sorrindo.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Meia idade

Homem de meia idade.
Um jovem meio antigo,
um velho meio moderno.

Com a bagagem
de um santo,
que já flertou com o inferno.

Roteiro para um escritor

Fazer uma oração
aos pés da letra,
e me entregar de corpo
e alma nas mãos da palavra.

Sussurrar na orelha
de um livro,
fixar o olhar
nos olhos da frase.

Andar de braço dado
com a poesia,
carregar nos ombros
o peso de desejar a leveza do texto
e dar de ombros à pobreza da rima
fácil.

Mergulhar de cabeça
na prosa desordenada,
beber pronomes insubordinados
e sem funções.

Por fim, flertar
com a boca do inferno,
ver o céu escorrer por
entre os dedos
pra fora da margem no papel.

Deixar a mensagem
sair de casa,
a pé ou com asa,
direto ao coração da língua.

Quem sou eu

Minha foto
Na rádio, sou o narrador de futebol, Carlos Augusto. Na TV, sou o repórter e apresentador Carlos Albuquerque. Aqui, neste blog, pretendo resolver essa "crise de identidade" e juntar os dois "Carlos"! Mas, no fundo, sou aprendiz, eternamente aprendiz! Sou filho da terra, de todas as terras que formam o planeta, de todas as substâncias que formam o universo. Sou irmão de todos os seres. Sou o pai da Luíza.