A véspera
- Carlos, amanhã você está na rua!
- O que eu fiz, Hugo? Por que está me demitindo?
- Que demitindo o que! Amanhã, você deixa a função de produtor e passa a ser repórter de rua.
- Eu? Você é louco, Hugo?
- Sempre fui.
- Você sabe que eu não sei nem parar na frente da câmera?
- Sim, mas no momento, tudo o que você precisa fazer é, amanhã, antes de vir pra cá, cortar o cabelo.
A estreia
- Umberto, nossa pauta, hoje é sobre movimento na estação ferroviária, nesta véspera de sexta-feira da paixão.
- Ah, aquela pauta de todo ano!
- Você me ajuda a construir algo diferente, para não ficar a mesma reportagem de sempre?
- Sim, vamos lá entrevistar o pessoal chegando para pegar o trem.
Fomos, entrevistamos, conseguimos boas falas, imagens adequadas, que nos ajudariam a passar as informações. Depois de tudo editado, entregaríamos uma reportagem honesta para o MGTV segunda edição daquela quinta-feira da semana santa.
Eis que chega o momento de gravar a passagem, que é quando o repórter mostra o rosto, com algum texto, que se encaixe na reportagem. Para sorte dele, tinha ao lado, Umberto Lemos, um repórter cinematográfico já experiente, com disposição e a dose certa de paciência para ensinar a um jovem e verde repórter, que tinha, até então, usado a voz como narrador de rádio e com algum conhecimento, que naquela hora: não serviria para nada: havia sido bancário, tendo trabalhado 16 anos no Banco do Brasil, contando os três anos como menor auxiliar de serviços gerais. Agora, esse rapaz, de 31 anos, precisaria aprender a se posicionar diante da câmera. Oficialmente, eis as primeiras palavras que ele ouve de professor Umberto Lemos:
- Jovem, você é torto assim mesmo? Aprume esses ombros!
Hora do almoço
Faltavam poucos minutos para começar o MGTV primeira edição. Um táxi parou em frente à TV Leste, na Vila Rica, um bairro de Governador Valadares que tem o trânsito tranquilo, sem o movimento intenso do centro da cidade. O passageiro que desceu do carro um violão na mão. Chegou para uma entrevista ao vivo durante o jornal.
Tive o privilégio de ser o entrevistador. Foi uma conversa tranquila, leve. Ele falou do que o público poderia esperar na apresentação de mais tarde, no teatro da cidade; e entre uma pergunta e outra, tocou e cantou. Logo depois da entrevista, para surpresa do pessoal da redação, o cantor e compositor de Alucinação e Paralelas permaneceu nos corredores, como se esperasse alguém que viesse buscá-lo de volta para o hotel. O jornal terminou e ele ainda estava por ali.
Perguntei se ele queria que eu chamasse um táxi e ele respondeu com outra pergunta:
- Há algum restaurante aqui por perto?
Respondi que naquela região, não havia muitos restaurantes, mas me lembrei de que dentro da emissora, havia uma cantina, onde os funcionários costumavam almoçar.
- É uma comida simples, caseira, mas quem sabe? Se você quiser, eu falo com a moça para "botar uma água no feijão" e você nos dá a honra de almoçar com a gente
Falei isso, pronto para ouvir como resposta um "muito obrigado, não quero incomodar". Mas o compositor de "Hora do almoço" pareceu ter gostado da brincadeira da "água no feijão" e de pronto, respondeu:
- Eu vou aceitar esse convite! Onde fica a cantina?
- Vem comigo!
Ao chegar à cantina, já fui gritando:
- Elenita, ponha um prato a mais aí na mesa, porque temos convidado!
Arroz, feijão, frango frito, tomate e alface. À mesa, Belchior, Marcos Paulo Braga, um locutor que trabalhava numa rádio no mesmo prédio da TV e este embasbacado rapaz latino-americano, sem dinheiro no bolso, que de repente, almoçava com dois artistas tão importantes.
Sim, dois artistas, porque Marcos Paulo é um exímio caricaturista, e enquanto saboreávamos a comida e a conversa com Belchior, ele começou a revezar os movimentos da mão direita, entre um garfo cheio levado à boca e o riscar um guardanapo com uma caneta que ele tirou do bolso.
Assim que esvaziamos os pratos, percebemos que Marcos havia desenhado um rosto. Aquele inconfundível bigode não deixava dúvida. E Belchior pediu:
- Posso levar esse desenho pra mim?
Marcos Paulo respondeu que sim e ainda, a pedido de Belchior, autografou o guardanapo. E foi assim que enquanto Belchior entrava no táxi, rumo ao hotel, Marcos Paulo e eu nos olhamos, já cientes de que tínhamos experimentado um almoço com um tempero diferente. Estávamos saciados, mas com uma estranha fome de música e poesia.

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