sábado, 18 de julho de 2026

Anulação

Fez contra si

o crime perfeito:

decidiu fingir

deixou de ser

apenas pra ser aceito





quinta-feira, 16 de julho de 2026

Picolé Joia

Caixa de isopor,

friozinho no palito,

feito de gelo e sabor


- Ah ê o picolé!

Ecoa pelas ruas

o grito do vendedor:


É joia vender,

obrigatório comprar


A memória

não derreteu

o doce

que tem cheiro 

do sol quente


calor e frescor,

tudo ao mesmo tempo,

são dessa lembrança

os ingredientes 








terça-feira, 14 de julho de 2026

O baile das redundanças II

Na escuridão,

moram luzes;

no largo riso,

ou no choro raso,

sentimentos profundos;

em alguns fins,

recomeçam mundos;

há minutos que

nunca acabam

e uma vida inteira

que passa em segundos


Águas conjugadas

Eu rio

tu nuvens


de repente,

a chuva

te traz 


e eu te levo,

amor,

pra foz,


pra ver

o mar

que a gente fez


 

Leio em minski

Leio em mim e esquivo

de ler o que em mim escrevo

Vou ler em mim 

o que comigo me pareço


Não tá escrito

o tanto que de mim me esqueço

E sempre que acontece,

eu me faço de livro aberto 

E antes que o tempo feche

eu me feio em lindo

e me leio em minski

Guimarães

O perfume do Rosa

se espalha nos gerais

e nas veredas


Do alto do buriti,

Manuelzin-da-croa 

grita assim:


nesse rio,

nessa canoa,

cabe ser tão

Riobaldo

quanto Diadorim

Riobaldo e Diadorim

O dia

é a luz e a dor 

do rio


O rio

se banha

no fogo do dia



 



quinta-feira, 18 de junho de 2026

Novos mundos e modos

Não veio o fim do mundo

e sem o dia tão temido,

foi em vão todo o medo 

E agora, eu aqui,

sem saber o que fazer

com essa inesperada 

coragem


segunda-feira, 15 de junho de 2026

Sobre pesos e penas

Antes fosse o peso da pena

apenas o fardo

de sustentar com o ombro

a asa

antes do começo do voo


Antes durasse o peso 

da pena

apenas o tempo

que a pena leva para

rabiscar uma palavra 


Em que pesem

a liberdade e 

o risco de errar,


antes fosse leve todo erro

e qualquer erro valesse 

o peso da pena 


e a pena, ao ser paga,

apagasse o peso do erro

quarta-feira, 1 de abril de 2026

O baile das redundanças I

A chuva passa

rente ao clarão

da luz do poste

E pensar

que essa fonte luminosa

começou a ser acesa

da dança que veio da aldeia


Em algum canto 

da cidade,

num porão

ou quintal

em noite sem luz

pirilampos iluminam

a aranha na construção

da teia.


Peraê,

que o redemoinho

trouxe o saci


e a centopeia

se ofereceu

para dançar com

o pererê


Pelo grande salão

da floresta,

as garças que voam

em triângulo,

os pés-de-valsa

e as libélulas


A coruja, 

que é da noite espiã.

A coruja,

que da floresta é guardiã.






Estrelas com asas,

esses pirilampos


No desagravo

que os bichos se pudessem fariam,

a coruja, 

de espiã,

da floresta, é guardiã



 



Os pirilampos

são estrelas com asas

Corujas

esquadrinham todos

os passos 


Um drama

se enroscou nas pernas

dos dançantes

de um tango argentino


Um samba 

evocou

um passado

e exorcizou um medo


Tramas, lendas,

biografias e contendas

contadas

na letra de um samba-enredo


Dois passos pra lá

e dois pra cá

Contar até três

e se deixar levar


Parar somente

para o almoço

porque vai ter baião 

de dois



Se chover,

à noite,

qualquer luz

na cidade

vira fonte luminosa

com a água

que desce


E depois da 

dança da chuva,

o girassol floresce



Vai nascer 

um passarinho

pra atravessar o fundo

Talvez nasçam uns dois

ou três

E por isso,

agora,

dancemos todos

em volta do ovo indez


Rota para percorrer

Rumo pra não se perder

Bússola pra nortear


Com esse vento

eu me misturo

quero saber onde o

mistério chama de 

meu lugar


O medo de voar

nos tira

a alegria do pouso


porque quem voa sonha

quem sonha dança

quem dança 

sonha alto


sexta-feira, 13 de março de 2026

Sem direito a ser covarde

Para valer o escrito,

qualquer poema,

ao deslizar na folha,

conduzido pelos dedos

do escritor,

tem que deixar no papel

um rastro de sujeira


Necessária,

pois essa obsessão

do poeta pela catarse

de fazer verso lavar alma

tira dele o direito

de lavar as mãos

quinta-feira, 12 de março de 2026

Olho vivo

 Tudo ficou mais claro

quando a noite escureceu;

é que na esquina, um fato raro,

meu olhar cruzou com o seu.

O baile das redundanças

Pernas, pra que te quero?

Pra correr do monstro

pra parar,

andar, pular

fugir, esconder,

cair, alcançar,

esticar

e  te enroscar

noutras pernas 

no tango argentino


Contigo eu

vou pro samba

e vou pra rua,

avanço

recuo,

atravesso

e corro pro abraço


Você me dá o seu coração?

Tome, tá na mão


Pra conseguir

tem que saber o que quer

E quem se conhece

sabe o que é


Se você diz que algo 

vai fazer

ou que alguém você vai ser

basta dizer e já é


Se existe rota é para percorrer

E rumo pra não se perder

Bússola pra nortear

E olho pra gente ver


mas com esse vento

tão seguro

vou pra qualquer lugar



Quem quer amar vai sofrer

Para voar tem que decolar

Pra recitar tem que decorar

Pra compreender é preciso ouvir

E pra cantar que nem passarinho

tem que bater asas

porque quem canta  voa

porque quem voa sonha

quem sonha dança

quem dança 

sonha alto




 

E no salão, 

 solidão num canto

 saudade no outro


Vida e morte 

se entrelaçavam num tango argentino



O futuro pegou o 

passado pra dançar

Erraram alguns passos,


com que 

eu sonhava

já é passado.


O passado se faz presente






 



quarta-feira, 4 de março de 2026

A meta do verso

Aí está o escritor

em busca da meta:

encontrar o verso

soft e esticado,

 

tão soft ao ponto 

de flutuar ao vento


tão esticado

ao ponto de abrigar

os caprichos do estilo

e divagações do pensamento.



Revisão das cidades

Quem inventou a calçada

não imaginou 

raízes fincadas no chão

para sustentar a sombra em dias de muito sol


Quem esticou fios elétricos

sobre as ruas

não planejou galhos e folhas

dando proteção


Falha de projeto,

erro de previsão


Descombinado

O corpo não combina com o rosto

e ao contemplar o todo,

o olhar se perde no resto.


O título não tem nada a ver com o texto;

e a textura não corresponde ao gosto;


nem a fruta

é igual às outras do cesto.

Quem sou eu

Minha foto
Na rádio, sou o narrador de futebol, Carlos Augusto. Na TV, sou o repórter e apresentador Carlos Albuquerque. Aqui, neste blog, pretendo resolver essa "crise de identidade" e juntar os dois "Carlos"! Mas, no fundo, sou aprendiz, eternamente aprendiz! Sou filho da terra, de todas as terras que formam o planeta, de todas as substâncias que formam o universo. Sou irmão de todos os seres. Sou o pai da Luíza.