terça-feira, 8 de setembro de 2026

Livro de contos e crônicas

                               A véspera 


- Carlos, amanhã você está na rua!

- O que eu fiz, Hugo? Por que está me demitindo?

- Que demitindo o que! Amanhã, você deixa a função de produtor e passa a ser repórter de rua.

- Eu? Você é louco, Hugo?

- Sempre fui.

 - Você sabe que eu não sei nem parar na frente da câmera?

- Sim, mas no momento, tudo o que você precisa fazer é, amanhã, antes de vir pra cá, cortar o cabelo.


                             A estreia


- Umberto, nossa pauta, hoje é sobre movimento na estação ferroviária, nesta véspera de sexta-feira da paixão.

- Ah, aquela pauta de todo ano!

- Você me ajuda a construir algo diferente, para não ficar a mesma reportagem de sempre?

- Sim, vamos lá entrevistar o pessoal chegando para pegar o trem.

       Fomos, entrevistamos, conseguimos boas falas, imagens adequadas, que nos ajudariam a passar as informações. Depois de tudo editado, entregaríamos uma reportagem honesta para o MGTV segunda edição daquela quinta-feira da semana santa. 

      Eis que chega o momento de gravar a passagem, que é quando o repórter mostra o rosto, com algum texto, que se encaixe na reportagem. Para sorte dele, tinha ao lado, Umberto Lemos, um repórter cinematográfico já experiente, com disposição e a dose certa de paciência para ensinar a um jovem e verde repórter, que tinha, até então, usado a voz como narrador de rádio e com algum conhecimento, que naquela hora: não serviria para nada: havia sido bancário, tendo trabalhado 16 anos no Banco do Brasil, contando os três anos como menor auxiliar de serviços gerais. Agora, esse rapaz, de 31 anos, precisaria aprender a se posicionar diante da câmera. Oficialmente, eis as primeiras palavras que ele ouve de professor Umberto Lemos:

- Jovem, você é torto assim mesmo? Aprume esses ombros!     


                                 Hora do almoço 

       Faltavam poucos minutos para começar o MGTV primeira edição. Um táxi parou em frente à TV Leste, na Vila Rica, um bairro de Governador Valadares que tem o trânsito tranquilo, sem o movimento intenso do centro da cidade. O passageiro que desceu do carro um violão na mão. Chegou para uma entrevista ao vivo durante o jornal.

      Tive o privilégio de ser o entrevistador. Foi uma conversa tranquila, leve. Ele falou do que o público poderia esperar na apresentação de mais tarde, no teatro da cidade; e entre uma pergunta e outra, tocou e cantou. Logo depois da entrevista, para surpresa do pessoal da redação, o cantor e compositor de Alucinação e Paralelas permaneceu nos corredores, como se esperasse alguém que viesse buscá-lo de volta para o hotel. O jornal terminou e ele ainda estava por ali.

      Perguntei se ele queria que eu chamasse um táxi e ele respondeu com outra pergunta:

      - Há algum restaurante aqui por perto?

       Respondi que naquela região, não havia muitos restaurantes, mas me lembrei de que dentro da emissora, havia uma cantina, onde os funcionários costumavam almoçar. 

      - É uma comida simples, caseira, mas quem sabe? Se você quiser, eu falo com a moça para "botar uma água no feijão" e você nos dá a honra de almoçar com a gente

        Falei isso, pronto para ouvir como resposta um "muito obrigado, não quero incomodar". Mas o compositor de "Hora do almoço" pareceu ter gostado da brincadeira da "água no feijão" e de pronto, respondeu:

      - Eu vou aceitar esse convite! Onde fica a cantina?

       - Vem comigo!

       Ao chegar à cantina, já fui gritando:

      - Elenita, ponha um prato a mais aí na mesa, porque temos convidado!

     Arroz, feijão, frango frito, tomate e alface. À mesa,  Belchior, Marcos Paulo Braga, um locutor que trabalhava numa rádio no mesmo prédio da TV e este embasbacado rapaz latino-americano, sem dinheiro no bolso, que de repente, almoçava com dois artistas tão importantes. 

     Sim, dois artistas, porque Marcos Paulo é um exímio caricaturista, e enquanto saboreávamos a comida e a conversa com Belchior, ele começou a revezar os movimentos da mão direita, entre um garfo cheio levado à boca e o riscar um guardanapo com uma caneta que ele tirou do bolso.  

    Assim que esvaziamos os pratos, percebemos que Marcos havia desenhado um rosto. Aquele inconfundível bigode não deixava dúvida. E Belchior pediu:

    - Posso levar esse desenho pra mim?

    Marcos Paulo respondeu que sim e ainda, a pedido de Belchior, autografou o guardanapo. E foi assim que enquanto Belchior entrava no táxi, rumo ao hotel, Marcos Paulo e eu nos olhamos, já cientes de que tínhamos experimentado um almoço com um tempero diferente. Estávamos saciados, mas com uma estranha fome de música e poesia.       

     

                                  Dos meus comunistas, cuido eu!

      A frase do título deste texto é atribuída a Roberto Marinho, quando, nos anos de 1960 e 1970, o dono das Organizações Globo se negava a atender aos pedidos dos militares para demitir ou perseguir jornalistas e funcionários de esquerda ou simpatizantes do comunismo. Roberto Marinho tinha uma posição anticomunista e, inicialmente, os veículos de imprensa dele chegaram a declarar apoio ao golpe de 1964. Mas ele fazia questão de validar a famosa expressão "dos meus comunistas, cuido eu" ao proteger e manter os postos de trabalho de funcionários mais afinados com a esquerda.
        Certamente, no interior de Minas Gerais, Édson Gualberto, fundador, sócio e diretor-presidente da TV Leste, em Governador Valadares, conhecia essa história. E não sei se inspirado pelo posicionamento do proprietário da rede à qual a emissora regional era afiliada, assumiu uma postura parecida.
Corria o ano 2000, com eleições municipais, sempre muito disputadas na cidade.
        Édson era candidato a vice-prefeito. Pelos corredores da emissora de TV, circulava o boato de que o dono da empresa estava chateado, por saber que muitos dos funcionários dele estavam propensos a votar em candidatos da esquerda, opositores da chapa em que ele era candidato a vice. Os comentários davam conta, até, de que Édson já havia elaborado uma lista de funcionários que seriam demitidos. Em meio a esse clima de tensão e medo de uma demissão em massa, os de esquerda evitavam encontrar o patrão, para quem sabe, talvez ser esquecidos nessa tal lista.
      Eis que um dia, já na antevéspera da eleição e com as pesquisas apontando a derrota da chapa do patrão, ele encontra, no corredor, com um dos candidatos à demissão. E já solta logo o torpedo:
    - Você não me engana, meu filho! Você é vermelho, não é?
       Assustado, mas com presença de espírito, o funcionário devolve rapidamente, no reflexo, sem tempo de elaborar uma resposta mais segura:
     - Sim, sr. Édson! Sou tão vermelho, que chego a ser roxo!
      Desta vez, quem fica atordoado com a resposta é ele, o patrão, tão temido, até poucos segundos atrás. Talvez, pego de surpresa pela resposta do jornalista, ele encerrou assim aquele encontro no corredor:
     - Vai trabalhar, meu filho!
        Acabou a eleição, Édson e o candidato dele perderam e não saiu a lista de demitidos da emissora de TV. Todos permaneceram empregados: os da direita e os da esquerda. Para muitos, foi a reedição da célebre frase: "dos meus comunistas, cuido eu"!


Carlos, aprenda uma coisa: TV não é rádio

Em 1995, eu era bancário, mas paralelamente ao Banco do Brasil, atuava no rádio, como apresentador e narrador esportivo. Um dia, recebi o telefone de um homem, de voz grave e firme, convidando-me para apresentar, com ele, um programa que ia ao ar todo sábado, na TV Rio Doce. Era o "Sábado Esportivo". Foi esse programa o meu primeiro contato com toda essa parafernália, toda essa "caixinha de fazer doido", que é o veículo televisão.

Brito era firme, direto na hora de me mostrar o "caminho das pedras". Não mandava recado. Ele me fez entender que rádio e TV até poderiam ser parecidos em alguma coisa, mas eram diferentes. Foram seis meses de intenso aprendizado. Quando o programa terminou, porque ele estava cansado de correr atrás de patrocínio, fiquei triste, naturalmente, mas depois, com o tempo, pude compreender como foi rico aquele período. Eu já até me dava por satisfeito por ter feito parte desse mundo das imagens, por ter sentido o gostinho da generosidade do público, o carinho com que trata os que se aventuram a encarar uma câmera num estúdio de TV.

Brito foi muito maior do que um apresentador de programa de esportes. Apaixonado pelo Botafogo e pelo Democrata de GV, ele se fez presente em diversas áreas e sempre de forma marcante.

Quatro anos depois, quando eu comecei a trabalhar com o telejornalismo, já na TV Leste, Brito fazia questão de deixar claro que assistia, que acompanhava o meu trabalho. Eu sempre esperava uma crítica, uma observação mais contundente, com aquele "jeitão" dele de dizer o que pensava. Essa crítica nunca veio. Mas eu me lembrava das broncas que ele me dava na época do "Sábado Esportivo", quando ele corrigia minha entonação de voz, minha postura corporal e o meu vocabulário, que precisava se adequar à linguagem televisiva.

E assim, os ensinamentos ficaram eternos. Tive a sorte de convidá-lo, mais alguns anos depois, para ser meu comentarista em algumas transmissões de jogos do Democrata pelo rádio. Era a forma de agradecer a ele pelo mestre que foi, com preciosas lições de profissionalismo, caráter e generosidade.


  Vai, Carlos, ter dois nomes na vida!


Primeiro de maio de 1988. Almocei cedo e fui direto para o Estádio Mammoud Abbas. Eu havia entrado naquele espaço apenas uma vez. Não conhecia os atalhos internos. Cheguei, perguntando onde achava um banheiro, ou um local onde houvesse uma pia. Queria escovar os dentes. Mais do que um cuidado com a higiene pessoal, inconscientemente, talvez, queria estar seguro de que a boca escovada poderia contribuir para que eu usasse bem a voz.

E iria usar muito a voz naquele dia. Era a minha estreia como narrador esportivo. Iria narrar o jogo pela Rádio Ibituruna AM 1320 KHZ, que tinha uma equipe composta por profissionais já experientes: José Luiz Barbosa era o comentarista; Welson Diniz e Jairo Taborda, os repórteres de campo; Getúlio Miranda Sobrinho dava suporte técnico e no estúdio, estava Beto Teixeira.

O jogo era Democrata X Aymorés, de Ubá. A partida era pelo campeonato mineiro da segunda divisão. Em campo, empate por 2 x 2. Deixei o estádio me sentindo o grande vencedor daquele confronto. Pouco mais de dois meses antes de completar 21 anos, eu realizava o sonho de narrar uma partida de futebol, um jogo oficial, transmitido ao vivo pelo rádio.

No dia seguinte, a ansiedade era outra: saber se o diretor da rádio e também comentarista da equipe havia gostado da minha narração. Cheguei à rádio pela manhã e fui recebido na sala do diretor. José Luiz Barbosa já foi logo dizendo:

- Gostamos bastante da sua narração. Mas há um problema!

Naquele momento, eu me preocupei. O que houve de errado, cometi algum erro, alguma gafe? Algo com a minha voz?

- Pois não, pode falar, Seu José Luiz!

- Acho que seu nome, Carlos Albuquerque, não está adequado para conquistar os ouvintes. Albuquerque é um sobrenome que soa aristocrático. Precisamos de um sobrenome mais popular. Qual é o seu outro sobrenome?

- Augusto

- Pronto, está resolvido! A partir de agora, esqueça o Albuquerque. Seu nome de narrador vai ser Carlos Augusto.

E assim foi durante onze anos! Da Rádio Ibituruna, fui para a Rádio Educadora e da Educadora para a Rádio Mundo Melhor. Carlos Augusto era, sim, um nome acessível, fácil de ser lembrado.

Em 1991, ganhei de um ouvinte, chamado Galileu Teixeira, uma alcunha, da qual gostei muito e adotei logo: "o poeta da narração esportiva". O motivo eram as frases, retiradas de músicas e poemas, que eu incluía nas transmissões dos jogos. Em 1994, um colega radialista da cidade de Caruaru, em Pernambuco, presenteou-me com uma vinheta, produzida para um locutor homônimo meu, que havia trabalhado por lá. A vinheta "Carlos Augusto" fez sucesso. Volta e meia, eu entrava no ônibus do transporte coletivo e acabava ouvindo alguém imitando a melodia da vinheta: Carlos Augusto!

Mas eis que chega o ano de 1999. Onze anos depois de abrir mão do sobrenome Albuquerque, eu iria passar por experiência semelhante, mas às avessas. No dia em que me tornei repórter da TV Leste, a conversa com o diretor de jornalismo da emissora, Hugo Alessi.

- Carlos, a partir de amanhã, você vai usar o sobrenome Albuquerque. Acho que combina mais com a TV.

- Puxa, Hugo, faz onze anos que sou Carlos Augusto no rádio, o público já acostumou com esse nome. Não faz sentido eu voltar a ser Carlos Albuquerque agora.

- Vai por mim: Albuquerque soa bonito. Os caracteres para creditar as suas reportagens já está até salvo no computador: Carlos Albuquerque.

E foi assim que passei a ser dois: no rádio, Carlos Augusto; na TV, Carlos Albuquerque!


Piscada inconveniente


Termina o MGTV segunda edição e o interfone toca na redação. O recepcionista informa que há um homem, um tanto quanto nervoso, querendo conversar com o apresentador Gabriel Duarte.

Gabriel chega à portaria e ouve em tom ameaçador:

- Eu vou matar você, se continuar piscando o olho para a minha esposa.

- Eu? Piscando olho para a sua esposa? Eu não o conheço e muito menos sei quem é a sua esposa, meu senhor!

- Pensa que me engana? Tenho reparado todos esses dias, que quando você encerra o jornal, dá o boa noite, dá uma piscada, exibindo esses olhos azuis. No sofá, lá em casa, minha mulher dá um risinho disfarçado. Eu só vim avisar. Amanhã, vou assistir ao jornal novamente e vou ficar de olho no encerramento. Se você voltar a piscar o olho para ela, pode se considerar um homem morto. Boa noite!

- Boa noite!


Pagando língua


Antes de trabalhar em uma emissora de TV, como telespectador eu implicava com a mesmice de algumas reportagens que iam ao ar, sempre em algumas épocas do ano, como movimento no comércio do dia das mães, dia dos pais, dia dos namorados, movimento na rodoviária ou na estação ferroviária em vésperas de feriados prolongados.

E não é que ao receber a minha primeira pauta para ser executada na rua, numa quinta-feira da semana santa, a missão era exatamente uma dessas reportagens por mim tão criticadas? As locações eram terminal rodoviário e estação ferroviária de Governador Valadares.

Enquanto nos dirigíamos, Umberto Lemos e eu, para a primeira marcação, que era a estação ferroviária, comentei com ele no carro:

- É, Umberto! Já comecei na reportagem, "pagando língua". Essa é uma das pautas que sempre critiquei, assistindo de casa. E agora, para meu castigo, já recebo a missão de lidar com uma "notícia velha".

Umberto, com aquele jeito bonachão, parecia até esperar por esse meu comentário. E reagiu com bom humor:

- É, jovem! Aqui se faz, aqui se paga.

E eu respondi:

- Se a pauta é a mesma de sempre, pelo menos o ditado a gente pode mudar um pouquinho. Em vez de "aqui se faz, aqui se paga", agora é "aqui se fala, aqui se paga".


Yes, nossa canopla no JN!

Álvaro Borges era um diretor de jornalismo que vibrava muito com o dia da TV. Cobrava bastante a qualidade do trabalho e dizia que uma reportagem bem feita regionalmente era o passaporte para que, cada vez mais, nossos repórteres aparecessem nos telejornais da Rede Globo. A meta principal, sempre, era o Jornal Nacional.

E o esforço valeu a pena. Volta e meia, para alegria de Álvaro, lá estava um repórter da TV Leste em algum jornal de rede, com matérias sobre emigração para o Estados Unidos, enchente, alta do dólar, qualidade da água do Rio Doce, Ipatinga brilhando na Copa do Brasil...

Em algumas situações, os editores do JN pediam apenas uma colaboração da TV Leste. Recebíamos a incumbência de gravar uma ou outra entrevista em Governador Valadares ou outra cidade da região, para ser inserida em reportagem que seria executada pela equipe do Rio, São Paulo ou Belo Horizonte. Quando isso ocorria, Álvaro esperava o JN com a expectativa de sempre. E mesmo que estivéssemos concentrados, editando algum outro material, sabíamos quando a entrevista que gravamos entrava no ar no Jornal Nacional. É que de dentro da sala do diretor, ouvíamos os gritos:

- Hi ruh! Valeu, pessoal! Nosso microfone no JN! Isso aí, valeu demais!

Para o treinador daquele time jornalistas, bola na trave não era quase gol, era gol! E fazia questão de comemorar o feito com os jogadores.


Visitante demitido


Na portaria da TV Leste, uma mulher que queria, porque queria, falar com um apresentador da emissora, que naquele momento, estava no ar. A recepcionista explicava, argumentava, "desenhava" a situação, mas ela não queria ouvir e continuava a insistir.

Um outro visitante, assentado na poltrona, acompanhava e ria daquela cena. Édson Gualberto chegou do almoço e se tornou mais um espectador. Depois de dar umas risadas, entrou em direção à cantina.

O visitante que tinha acabado de se divertir com o "barraco" da mulher na portaria também foi para a cantina. Assim que avistou o dono da emissora, brincou:

- A esposa do senhor estava insistente lá na portaria, né?

Édson esboçou uma expressão de surpresa com aquela brincadeira, mas não pensou muito para responder:

- Pois é, você viu aquilo?

Logo depois, subiu para a sala dele, no segundo andar. Não passou muito tempo, o telefone interno tocou na redação. Ao atender, o funcionário ouviu o seguinte recado:

- Meu filho, preciso falar com você. Dê um pulo aqui na minha sala.

Como não eram comuns aquelas convocações para ir à sala do dono, o funcionário subiu as escadas um tanto quanto preocupado, pensando qual seria o motivo daquele chamado.

- Pois não, Sr. Édson! O senhor me chamou, estou aqui.

- Meu filho, vou ser direto: não gostei da brincadeira que aquele rapaz fez comigo lá na cantina. Fiquei constrangido. Por favor, diga a ele que isso não se repita, para ele não se dirigir daquela forma a mim. Caso contrário, ele vai ser demitido.

O funcionário, segurando o riso, respondeu:

- Sr. Edson, impossível o senhor demitir aquele jovem. Ele não trabalha aqui. Era apenas um visitante.

E como sempre fazia quando acabavam os argumentos, ou quando não queria mais conversa, Sr. Edson encerrou assim o diálogo com o funcionário:

- Está bom, meu filho. Vai trabalhar!

Não corte, em nome de Jesus!

Quem trabalha com telejornalismo sabe que em televisão, mais do que dinheiro, tempo é ouro em pó. Além de se preocupar com o conteúdo, com a forma, texto, imagens, edição, voz, vestuário, maquiagem, exibição, os editores precisam ter uma atenção toda especial para não deixar esse ouro escapar por entre os dedos.

O jornal da noite, por exemplo, numa emissora afiliada à Globo, vem sempre entre duas novelas. Se a programação informar que para o jornal da noite está reservado o tempo de 27 minutos e 32 segundos, o editor precisa encaixar as reportagens rigorosamente dentro desse tempo. Um segundo a mais e o profissional que fica na sala de controle mestre tem autorização tácita para cortar o jornal no ar, até mesmo antes do boa noite final do apresentador e abrir espaço para a novela.

Mas cortar o jornal antes de uma reportagem terminar de ser exibida, ou no meio de um "boa noite" do apresentar é um constrangimento geral, que tira o sono do editor, do apresentador e até mesmo do profissional do controle mestre. Além de demandar relatórios, que são compartilhados para vários departamentos da emissora, com consequências que podem ir desde a uma advertência verbal a uma advertência por escrito, com risco até de demissão sumária.

Marialda Barreto, uma das grandes editoras com quem já trabalhei, extremamente cuidadosa com o texto, zelosa pelos detalhes do jornal e vigilante para não deixar o tempo estourar, acabou por protagonizar uma cena

que merecia ter sido filmada.

Naquela noite, estava tudo normal: jornal no ar, boas reportagens, tudo tranquilo. Até o momento em que ao refazer as contas no switcher, que é a sala de onde o diretor de TV dispara os VT's com as reportagens, sob a supervisão da editora-chefe, ela percebeu algo de errado. Era uma conta que ela fazia junto com o profissional do controle mestre. A confirmação veio dele mesmo, pelo microfone de comunicação interna: o tempo que faltava para terminar a matéria no ar era maior do que o tempo que restava para o jornal sair do ar. Coisa de dez segundos. Para a TV, uma eternidade. Para o controle mestre, a tal autorização para ele cortar o jornal no ar, sem dó. Para Marialda, um terror.

É preciso acrescentar que Marialda estava recém-convertida. Havia se tornado evangélica e estava com a fé em dia. Pelo microfone interno, começou um trabalho para tentar convencer o controle mestre a não cortar o jornal, que seria para ela o mesmo que tomar uma facada no coração. Mas ele parecia irredutível. A resposta era lacônica:

- Vou ter que cortar.

- Por favor, não corte.

- Não há outro jeito, Marialda. Não podemos cortar o início da novela.

- Eu lhe peço, eu lhe imploro: não corte, meu amado!

- Sinto muito, vou cortar.

A sala do controle mestre ficava bem ao lado do switcher. Marialda não teve dúvida: abandonou a cadeira de onde acompanhava a exibição do jornal e atordoada, entrou na sala do controle mestre. Viu que a mão do profissional já estava em cima do fatídico botão que ele estava prestes a apertar para tirar a reportagem do ar e cortar a imagem para a novela. Foi então que ela voou em direção ao braço dele, já aos berros:

- Não vou deixar você cortar, amado!

- Vou ter que cortar!

Agora, ajoelhando e com a mão imobilizando a mão dele:

- Em nome de Jesus, você não vai cortar!

O controle mestre ficou livre daquela pressão psicológica, espiritual e física somente quando a reportagem acabou e o apresentador deu o boa noite. Numa noite em que a novela entrou com dez segundos de atraso.

E agora? Quais as consequências? Levaria uma advertência? Seria demitido? Internamente, ficou com a sensação de que aquele pecado não cairia na conta dele. Afinal, tinha sido contido nas obrigações profissionais por uma mão comandada por uma voz que berrava em nome de Deus.

Depois do expediente, os dois retornaram para casa, com a sensação de que estavam devidamente perdoados e salvos.


Sem câmera, sem ação

Saímos para uma reportagem na zona rural de Itambacuri: o repórter cinematográfico Augusto Lima e eu. Naquela época, o carro da TV era uma Parati. Antes da viagem, a checagem de rotina: microfone, câmera, tripé, baterias, tudo tinha que estar no bagageiro do carro.

Essa tarefa de conferir o material antes de sair para a reportagem era, naturalmente, do repórter cinematográfico. Entrei no carro sem me preocupar isso. Minhas atenções estavam voltadas para o conteúdo da pauta: dados, informações técnicas, pessoas que iriam dar entrevista...

Era bem cedo, o sol nem havia nascido ainda. Viagem tranquila. Conversávamos sobre a paisagem, falávamos como era bom sair da cidade para fazer uma reportagem na zona rural. Quebrar a rotina nos fazia arejar a mente, desestressar. Entre um assunto e outro, já combinávamos algum detalhe sobre as imagens que seriam captadas para a reportagem.

Depois de 110 km até Itambacuri, percorremos mais 20 km de estrada de terra, até chegarmos à fazenda, onde gravaríamos a reportagem. Augusto estacionou o carro. Como é costume dos repórteres, olhei para o retrovisor interno do carro, para dar uma ajeitada no cabelo. Enquanto isso, Augusto abria a porta do bagageiro. Foi então que ele retornou à porta da frente do veículo, a do motorista, enquanto eu já punha o pé para o lado de fora, para sair e começarmos a gravar. Foi quando ele disse:

- Pode voltar, nem precisa sair.

- Como assim? O que houve?

- Você não vai acreditar, mas deixei a câmera pra trás.

- Mas lá na TV, eu vi você com ela na mão, antes de eu entrar no carro.

- Pois é, mas eu dei um pulo na sala dos cinegrafistas para "recarregar a minha bateria" e tomar um cafezinho. Deixei a câmera em cima da mesa, para abrir a garrafa. Tomei o café, entrei no carro e esqueci a câmera lá.

Saímos do carro apenas para avisar ao agricultor que nos esperava, que precisaríamos retornar para Governador Valadares, porque havíamos esquecido a câmera. Augusto contou a ele a história, já se culpando pela decisão de tomar o cafezinho. O agricultor ouviu com tranquilidade, disse que não havia problema e que a matéria poderia ser remarcada. E encerrou com um convite:

- Não vou deixar vocês irem embora, sem tomar um cafezinho!

Festa do fim do mundo

Dentre as muitas previsões para o fim do mundo, havia uma que, não sei por quais motivos, começou a ser muito esperada pelo departamento de jornalismo da TV Leste.

De acordo com a previsão no dia 5 de maio do ano 2000, um alinhamento planetário causaria um holocausto estelar. Um fenômeno que puxaria planetas em direção ao sol. Seríamos todos consumidos pelo fogo solar.

Como ninguém chegaria vivo ao dia 6 de maio, o grupo combinou que no dia 4, faria uma festa de despedida, para esperar o armagedon. Escolhemos o local: kitnete de Cristiane Armond e Patrícia Daldegan.

Assim que terminou o MG segunda edição, à noite, fomos todos para a predinho amarelo, onde ficava a kitinete. Bebidas, salgados, papel e caneta. Combinamos que cada um escreveria mensagens num pedaço de papel para o futuro. Não o nosso futuro, naturalmente, já que estávamos condenados à extinção. Os recados seriam lidos por eventuais sobreviventes da hecatombe ou para os seres que, de repente, aterrissariam sobre os escombros deste nosso planeta Terra.

Os recados eram os mais diversos: declarações sobre quem éramos nós, desenhos de prédios, carros, contorno da palma da mão, versos de poemas, frases soltas, declarações de amor, pedidos de reconstrução do planeta...

A festa foi mesmo apocalíptica. Para alguns de nós, o mundo acabou ali mesmo. Saímos mortos, embriagados pela intensidade da despedida, pela emoção daquela sólida e repentina união, por aquele pacto de cumplicidade.

Mas eis que amanhecemos todos vivos no dia 5 de maio. Do meu quarto, eu ouvia apenas uma música que vinha do apartamento vizinho. Em poucos segundos, reconheci a voz. Era Eduardo Dusek cantando: "Levanta, me serve um café, que o mundo acabou!"

Caiu na rede é gol!

Se há algo que um repórter, em início da carreira, almeja, é a primeira entrada em rede nacional. O serviço diário se resume a cumprir essa meta. Cada pauta, cada assunto, cada entrevista é um tijolo em potencial para construir esse acesso a um jornal de rede.

No meu caso, foi de forma inesperada. Era o ano de 1999. Estamos falando de uma época sem internet, sem aplicativos de mensagem, sem postagens instantâneas. A notícia, muitas vezes, chegava à redação da emissora sob forma de boato, um telefonema anônimo, um comentário descuidado na padaria, um "ouvi falar".

Foi por uma dessas vias que chegou à redação da TV Leste a notícia, que ainda não era notícia, sobre um menino que teve a perna devorada por um tubarão em Nova Viçosa, litoral baiano. Belchíria Oliveira, que acumulava as funções de apresentadora e produtora, começou o difícil trabalho de apurar essa informação, de verificar a veracidade, de tentar contato com a família e o principal desafio: convencer a família a dar entrevista, a dar o aval para que fizéssemos a reportagem.

Belchíria, com a competência de sempre, deu vários telefonemas para confirmar tudo. Conseguiu conversar com a mãe do menino, que morava no bairro Santa Rita. A família acabara de retornar a Governador Valadares.

Depois de todo esse processo, Belchíria me chama:

- Carlos, é o seguinte: está tudo confirmado. O menino tem doze anos e realmente, teve uma das pernas comida pelo tubarão. A família vai recebê-lo em casa. Mas já avisou: não pode fazer imagens do menino, ele não vai dar entrevista, a mãe e o pai dele também não vão gravar.

- Puxa, mas o que eu vou fazer lá então?

- Uai, você vai lá e veja o que você consegue.

Virei para o diretor de jornalismo, Hugo Alessi, que estava na redação, esperando alguma frase, alguma orientação, que veio:

- Vire-se, você não é quadrado!

E lá fomos nós. O endereço da pauta estava certinho e chegamos à casa da família do menino. Fomos bem recebidos. Já avisados pela produção, fomos com cautela. Augusto Lima entrou com a câmera desligada. Deixei o microfone em cima da mesa, enquanto conversava com a mãe do menino. Ela começou a contar tudo, desde o início. Eu anotava, mas no fundo, com a frustração de saber que ela não iria falar nada daquilo na entrevista e nem sequer ia dar entrevista. De repente, chega uma irmã dela e joga um envelope em cima da mesa. Vi no envelope a logomarca de uma loja de revelação de fotografias. Perguntei:

- Que fotos são essas?

- Do nosso passeio na praia.

- Seu sobrinho está nelas?

- Sim, está

- Antes do ataque do tubarão?

- Sim.

- Puxa, será que posso ver?

A mãe do menino respondeu que sim. Criei coragem e fiz outra pergunta:]

- Será que não podíamos filmar essas fotos?

Quando a mãe respondeu que sim, respirei fundo e olhei para Augusto, com o ar de quem estava perdendo o jogo de cinco a zero e agora, tinha acabado de fazer um gol. O repórter cinematográfico não perdeu tempo. Procurou uma jarra na mesa para apoiar as fotos (eram cinco), e filmou uma de cada vez. Nessas fotos, o menino aparecia sorridente, ao lado do pai, da mãe, tios. Momentos de descontração na praia, cinco minutos antes de aparecer o tubarão.

Enquanto Augusto filmava as fotos, a mãe narrava o episódio da praia. Até então, nem sinal do menino. A informação da família era de que ele estava dormindo. Mas de repente, quando a mãe contava a história, ouço uma voz vinda do quarto que dava para a sala:

- Não foi assim, mãe. A senhora se esqueceu dessa outra parte...

A mãe aceitou a intervenção do filho e continuou a narração. E novamente, é interrompida:

- Não, mãe. Conte essa história direito. A senhora está falando tudo errado.

Foi quando ouvi a frase que valeu como mais um ou dois gols:

- Ah, meu filho, então conte você. Ninguém sabe melhor o que aconteceu do que você.

Ela abriu passagem e entramos, Augusto e eu, no quarto do menino. Sentamos em duas cadeiras ao lado da cama e começamos a ouvir tudo. Eu anotava tudo, mas me veio a ideia de fazer uma pergunta:

- A senhora não deixa ele gravar isso comigo?

Eu já estava pronto para receber um não, quando ela vira-se para o menino e diz:

- Bom, se ele quiser, tudo bem. Você quer gravar, meu filho?

A resposta dele já era gol da virada:

- Uai, eu gravo. Pode filmar.

Gravamos. De forma serena, ele contou como foi, descreveu a cena, falou a sensação estranha de ainda sentir a perna amputada, como se ela ainda estivesse ali, ligada ao corpo. Era um gol de placa.

A partida já estava ganha, mas ainda fizemos mais um gol: o pai do menino havia chegado da rua e também aceitou gravar entrevista.

Corremos para a redação. Gravei uma passagem, fiz o texto, gravei. A reportagem foi ao ar no MGTV primeira edição. Eu nem pensava em rede. Pensava naquele menino, na resignação dele com o que havia acontecido, com a capacidade de aceitar a perda de um pedaço do corpo, sem perder a vontade de viver, sem perder a energia de um adolescente. Em vez de provocar pena, ele atraía admiração.

Entre o MGTV Primeira Edição e o Jornal Hoje, havia do Globo Esporte. Hugo Alessi, o diretor de jornalismo, veio até mim e disse:

- Sua reportagem vai entrar no Jornal Hoje.

Naquela época, toda reportagem do Jornal Hoje era assinada pelo repórter, que ao fim precisava gravar um rabicho padrão: Fulano de tal, da cidade x, para o Jornal Hoje. No meu caso, seria: Carlos Albuquerque, de Governador Valadares, para o Jornal Hoje.

- Claro que não vai sair, Hugo. Se fosse sair, eles teriam me ligado e pedido para eu gravar o rabicho. Se eu não gravei o rabicho, a matéria não vai entrar.

- Vai sim, acredite em mim.

Eu não acreditei não. Fui para a cantina almoçar. De repente, ouvi uns gritos que vinham da redação. Eram meus colegas comemorando nossa reportagem que estava sendo exibida no Jornal Hoje. A relevância da notícia fez com que a edição do Hoje dispensasse a gravação do tal rabicho.

Nesse dia, experimentei, pela primeira vez, algo que me acompanharia em outras reportagens: o sentimento dúbio de satisfação por ter conseguido entregar um material de qualidade, aprovado pela rede; e um certo remorso por ter aparecido na rede nacional, a partir de um drama vivido por uma família, por um menino, de doze anos.

Mais de uma década depois, tive notícia de que aquele menino crescera, havia se transformado num homem bom, que jogava futebol usando uma perna mecânica, que fazia gols, que havia encontrado um jeito de se adaptar e de aproveitar a vida. Mesmo sem uma perna, deu passos importantes, escreveu novas histórias. Nunca mais revi aquele menino. Nunca mais deixei de olhar para aquele menino. E para aquele repórter.


segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Tal qual

Um olhar

de paisagem

a invadir  

retina


Uma rotina

a compor 

paisagem


Sem surpresa,

o olhar de sempre

é feito o pôr do sol,

todos os dias

tão igual


Mas esse olhar 

que se repete

sempre encanta,

como acontece

todo dia,

em ponto,

tão igual,

aquele mesmo 

pôr do sol.





 



quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Juras e promessas

Acordo  

com o pensamento

em vou ser


Sem pensar em 

saúde ou doença,

tristeza ou alegria


Vêm apenas 

estas palavras:


eu e vou ser,

para sempre


até que a morte 

me repare




sábado, 22 de agosto de 2026

Ensaios para uma senha

 

Números de 
alguma data
mais óbvia
para a memória 
do que 
para a imaginação

Um nome
de quem, talvez,
nunca soube 
que poderia ser
a chave 
de alguma porta

Quem sabe
uma senha 
ao avesso?
O nome
de alguém
a quem ainda
não tive
acesso 




quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Vai, idade!

Vai, idade!

Único jeito matemático

de me definir


Vai, idade!

Durante o ano inteiro,

eu em ti me vi


O teu problema

é que quando vens,

eu já te vivi


Vai, idade!

De ti não tenho como

desviar


Quanto mais

te tenho,

menos gostaria 

de ter


Foste a minha festa,

o bolo, o presente, o abraço

a alegria da maioridade,

Mas não venha se vestir

da ilusão da melhor idade


Vai, idade!

Diante do espelho,

quanto mais 

te vejo em mim,

menos gostaria de 

te ver


Vai, idade!

sei que estás à espreita,

rondando o meu futuro


E quando eu parar 

de te contabilizar,




 

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

O poema virou fumaça

Versos me arrepiaram

os cabelos,

reverberaram nas

paredes da memória

e esvoaçaram gritando

nas cavernas da imaginação


Mas antes de pousar 

na folha do papel,

foram embora com o vento


Eram versos,

mas não queriam 

ser escritos,

nem ser lidos


Quem sabe,

experimentados

apenas,

como um trago,

uma porção,

um gole 

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

À luz do só

E se o caos

levar ao cais?

E se depois do mar

revolto, 

a vida ficar sã?

Pode ser que

a noite em claro

não tenha sido vã


O caos, esse 

meu lugar comum,

não pariu estrela alguma

mas também

desgosto

trouxe nenhum


Um tumulto interno

para anular a tentação

do atalho 

que tudo adia


legitimou a tese

de que quem 

 

ainda que não ame

ou não seja amado

também não odeia 


Seria um passo

pra não ser odiado?

  

O caos não pariu

estrela alguma

mas gerou uma

improvável paz


não resolveu

teorema,

mas afastou

qualquer tipo de algema


e tudo de ruim que há

no mundo derreteu

de uma vez  

ao calor do sol,

à luz do só



Quem sou eu

Minha foto
Na rádio, sou o narrador de futebol, Carlos Augusto. Na TV, sou o repórter e apresentador Carlos Albuquerque. Aqui, neste blog, pretendo resolver essa "crise de identidade" e juntar os dois "Carlos"! Mas, no fundo, sou aprendiz, eternamente aprendiz! Sou filho da terra, de todas as terras que formam o planeta, de todas as substâncias que formam o universo. Sou irmão de todos os seres. Sou o pai da Luíza.