terça-feira, 8 de setembro de 2026

Livro de contos e crônicas

A véspera 


- Carlos, amanhã você está na rua!

- O que eu fiz, Hugo? Por que está me demitindo?

- Que demitindo o que! Amanhã, você deixa a função de produtor e passa a ser repórter de rua.

- Eu? Você é louco, Hugo?

- Sempre fui.

 - Você sabe que eu não sei nem parar na frente da câmera?

- Sim, mas no momento, tudo o que você precisa fazer é, amanhã, antes de vir pra cá, cortar o cabelo.


A estreia


- Umberto, nossa pauta, hoje é sobre movimento na estação ferroviária, nesta véspera de sexta-feira da paixão.

- Ah, aquela pauta de todo ano!

- Você me ajuda a construir algo diferente, para não ficar a mesma reportagem de sempre?

- Sim, vamos lá entrevistar o pessoal chegando para pegar o trem.

       Fomos, entrevistamos, conseguimos boas falas, imagens adequadas, que nos ajudariam a passar as informações. Depois de tudo editado, entregaríamos uma reportagem honesta para o MGTV segunda edição daquela quinta-feira da semana santa. 

      Eis que chega o momento de gravar a passagem, que é quando o repórter mostra o rosto, com algum texto, que se encaixe na reportagem. Para sorte dele, tinha ao lado, Umberto Lemos, um repórter cinematográfico já experiente, com disposição e a dose certa de paciência para ensinar a um jovem e verde repórter, que tinha, até então, usado a voz como narrador de rádio e com algum conhecimento, que naquela hora: não serviria para nada: havia sido bancário, tendo trabalhado 16 anos no Banco do Brasil, contando os três anos como menor auxiliar de serviços gerais. Agora, esse rapaz, de 31 anos, precisaria aprender a se posicionar diante da câmera. Oficialmente, eis as primeiras palavras que ele ouve de professor Umberto Lemos:

- Jovem, você é torto assim mesmo? Aprume esses ombros!     


Hora do almoço 

       Faltavam poucos minutos para começar o MGTV primeira edição. Um táxi parou em frente à TV Leste, na Vila Rica, um bairro de Governador Valadares que tem o trânsito tranquilo, sem o movimento intenso do centro da cidade. O passageiro que desceu do carro um violão na mão. Chegou para uma entrevista ao vivo durante o jornal.

      Tive o privilégio de ser o entrevistador. Foi uma conversa tranquila, leve. Ele falou do que o público poderia esperar na apresentação de mais tarde, no teatro da cidade; e entre uma pergunta e outra, tocou e cantou. Logo depois da entrevista, para surpresa do pessoal da redação, o cantor e compositor de Alucinação e Paralelas permaneceu nos corredores, como se esperasse alguém que viesse buscá-lo de volta para o hotel. O jornal terminou e ele ainda estava por ali.

      Perguntei se ele queria que eu chamasse um táxi e ele respondeu com outra pergunta:

      - Há algum restaurante aqui por perto?

       Respondi que naquela região, não havia muitos restaurantes, mas me lembrei de que dentro da emissora, havia uma cantina, onde os funcionários costumavam almoçar. 

      - É uma comida simples, caseira, mas quem sabe? Se você quiser, eu falo com a moça para "botar uma água no feijão" e você nos dá a honra de almoçar com a gente

        Falei isso, pronto para ouvir como resposta um "muito obrigado, não quero incomodar". Mas o compositor de "Hora do almoço" pareceu ter gostado da brincadeira da "água no feijão" e de pronto, respondeu:

      - Eu vou aceitar esse convite! Onde fica a cantina?

       - Vem comigo!

       Ao chegar à cantina, já fui gritando:

      - Elenita, ponha um prato a mais aí na mesa, porque temos convidado!

     Arroz, feijão, frango frito, tomate e alface. À mesa,  Belchior, Marcos Paulo Braga, um locutor que trabalhava numa rádio no mesmo prédio da TV e este embasbacado rapaz latino-americano, sem dinheiro no bolso, que de repente, almoçava com dois artistas tão importantes. 

     Sim, dois artistas, porque Marcos Paulo é um exímio caricaturista, e enquanto saboreávamos a comida e a conversa com Belchior, ele começou a revezar os movimentos da mão direita, entre um garfo cheio levado à boca e o riscar um guardanapo com uma caneta que ele tirou do bolso.  

    Assim que esvaziamos os pratos, percebemos que Marcos havia desenhado um rosto. Aquele inconfundível bigode não deixava dúvida. E Belchior pediu:

    - Posso levar esse desenho pra mim?

    Marcos Paulo respondeu que sim e ainda, a pedido de Belchior, autografou o guardanapo. E foi assim que enquanto Belchior entrava no táxi, rumo ao hotel, Marcos Paulo e eu nos olhamos, já cientes de que tínhamos experimentado um almoço com um tempero diferente. Estávamos saciados, mas com uma estranha fome de música e poesia.       

     




segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Tal qual

Um olhar

de paisagem

a invadir  

retina


Uma rotina

a compor 

paisagem


Sem surpresa,

o olhar de sempre

é feito o pôr do sol,

todos os dias

tão igual


Mas esse olhar 

que se repete

sempre encanta,

como acontece

todo dia,

em ponto,

tão igual,

aquele mesmo 

pôr do sol.





 



quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Juras e promessas

Acordo  

com o pensamento

em vou ser


Sem pensar em 

saúde ou doença,

tristeza ou alegria


Vêm apenas 

estas palavras:


eu e vou ser,

para sempre


até que a morte 

me repare




sábado, 22 de agosto de 2026

Ensaios para uma senha

 

Números de 
alguma data
mais óbvia
para a memória 
do que 
para a imaginação

Um nome
de quem, talvez,
nunca soube 
que poderia ser
a chave 
de alguma porta

Quem sabe
uma senha 
ao avesso?
O nome
de alguém
a quem ainda
não tive
acesso 




quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Vai, idade!

Vai, idade!

Único jeito matemático

de me definir


Vai, idade!

Durante o ano inteiro,

eu em ti me vi


O teu problema

é que quando vens,

eu já te vivi


Vai, idade!

De ti não tenho como

desviar


Quanto mais

te tenho,

menos gostaria 

de ter


Foste a minha festa,

o bolo, o presente, o abraço

a alegria da maioridade,

Mas não venha se vestir

da ilusão da melhor idade


Vai, idade!

Diante do espelho,

quanto mais 

te vejo em mim,

menos gostaria de 

te ver


Vai, idade!

sei que estás à espreita,

rondando o meu futuro


E quando eu parar 

de te contabilizar,




 

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

O poema virou fumaça

Versos me arrepiaram

os cabelos,

reverberaram nas

paredes da memória

e esvoaçaram gritando

nas cavernas da imaginação


Mas antes de pousar 

na folha do papel,

foram embora com o vento


Eram versos,

mas não queriam 

ser escritos,

nem ser lidos


Quem sabe,

experimentados

apenas,

como um trago,

uma porção,

um gole 

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

À luz do só

E se o caos

levar ao cais?

E se depois do mar

revolto, 

a vida ficar sã?

Pode ser que

a noite em claro

não tenha sido vã


O caos, esse 

meu lugar comum,

não pariu estrela alguma

mas também

desgosto

trouxe nenhum


Um tumulto interno

para anular a tentação

do atalho 

que tudo adia


legitimou a tese

de que quem 

 

ainda que não ame

ou não seja amado

também não odeia 


Seria um passo

pra não ser odiado?

  

O caos não pariu

estrela alguma

mas gerou uma

improvável paz


não resolveu

teorema,

mas afastou

qualquer tipo de algema


e tudo de ruim que há

no mundo derreteu

de uma vez  

ao calor do sol,

à luz do só



Quem sou eu

Minha foto
Na rádio, sou o narrador de futebol, Carlos Augusto. Na TV, sou o repórter e apresentador Carlos Albuquerque. Aqui, neste blog, pretendo resolver essa "crise de identidade" e juntar os dois "Carlos"! Mas, no fundo, sou aprendiz, eternamente aprendiz! Sou filho da terra, de todas as terras que formam o planeta, de todas as substâncias que formam o universo. Sou irmão de todos os seres. Sou o pai da Luíza.