terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Quanto molhar, melhor


Falta vaga no céu?
Guardo minha nuvem
num desenho no papel.

Só não pode chover,
pra não apagar o dever
escrito no caderno.

Mas deixa cair
em nós
o prazer celestial
de ouvir
a chuva no telhado.

E viva o direito
de chover
no molhado.



Tempos, ventos e santos

Tempo varre
pra dentro 
ou pra fora
da memória

vento corre
quilômetros horários
em tempo
ou fora de hora

Quem morre
vira pó
Quem vive
vive só

Tempo varre
vento corre
santo é 
quem morre.







Da série: Morte e Vida

Dona Morte
é uma mulher de sorte:
conheceu Dona Vida.

E desde então,
tem como melhor amiga
uma mulher suicida.


quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Crônica de ônibus

O ônibus lotado está com cheiro de maçã.
Um rapaz, em pé,
ao lado da catraca,
tem uma sacola de supermercado na mão.
Ele abre e tira de lá,
um bombom.
E come.

Uma mulher fala ao celular.
Um homem ri enquanto Lê uma mensagem no celular.
Outras duas mulheres
falam sobre um celular Ching-ling:

- O meu namorado me deu.
No início, funcionava muito bem.
Depois, a bateria foi ficando
"viciada" (o autor da crônica não sabe
dizer se ela usou a palavra viciada com ou
sem aspas)

- Esse é o problema do Ching-ling!
Já tive um.

O diálogo é breve.
As duas se calam.

Bem ao lado das mulheres,
um jovem manuseia o celular.
Ele usa fones no ouvido.
De vez em quando, olha para fora do ônibus.

O rapaz, perto da catraca,
tira mais um bombom da sacola e come.
Ele usa um boné cor de laranja
Mas, o ônibus continua com cheiro de maçã.

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Eu até já havia chegado ao ponto final.
Não ao fim da viagem do ônibus.
Mas, ao fim desta crônica.
Só retornei ao texto para dizer
que o rapaz, ao lado da catraca,
tirou o terceiro bombom da sacola.
E comeu.
E não sei se algum dia,
ao entrar no ônibus,
vou sentir esse mesmo cheiro de maçã.   

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Transfusão

Que amor tranquilo
que nada!
Ela implorava 
algo que mais do que 
fazer o coração disparar,
provocasse uma corrida rústica
nas veias.
Queria sentir
o sangue disparando,
freando bruscamente
em cada esquina arterial.


Ela esperava, ansiosamente,
por algo que a fizesse
mudar de nome,
mudar de endereço.



Queria um tsunami,
que a fizesse perder a identidade,
que a renovasse toda,
por dentro e por fora.


Estava pronta para
um amor,
que provocasse nela
uma transfusão geral de sangue
e de alma.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Casa desarrumada

Peixes no armário,
ossos no aquário,
poeira caindo do teto
e goteiras embaixo do tapete.

Sonhos no banheiro,
banhos no quarto,
temperos na sala,
sofás na cozinha.

Sopa no garfo,
macarronada na colher,
água no prato,
arroz na garrafa de café.

O sol entra pelo tubo hidráulico,
a lua sai pela porta
e volta pelo ralo da área de serviço.
A casa pós-histórica
exala magia torto e à direita.
Parece ter sido feita para Toquinho e Vinícius.

Casa anti-lógica,
quente.
Sem ar encanado,
sem gás condicionado.

Ainda está na planta,
é projeto,
é semente.
Mas, está pronta na mente
a casa desengonçada.

Quer uma igual?
É só morar ao lado,
porque essa louca morada
é casa geminada.



Cardiologista


Auscultava até onde não havia corações
procurava sinais vitais
em toda parte.
Acreditava na hipótese
de haver água em Marte.
Em meio à falta de notícias,
cruzava informações
que captava no ar:
pombas da paz,
bombas de gás,

mosquitos transmissores,
borboletas transgressoras...

Mas, o negócio dele
era mesmo o silêncio.
Gostava de auscultar.
Desconfiava que o segredo
estava na pulsar das coisas.

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Quem sou eu

Minha foto
Na rádio, sou o narrador de futebol, Carlos Augusto. Na TV, sou o repórter e apresentador Carlos Albuquerque. Aqui, neste blog, pretendo resolver essa "crise de identidade" e juntar os dois "Carlos"! Mas, no fundo, sou aprendiz, eternamente aprendiz! Sou filho da terra, de todas as terras que formam o planeta, de todas as substâncias que formam o universo. Sou irmão de todos os seres. Sou o pai da Luíza.