sexta-feira, 20 de abril de 2012

Honra ao mérito

Precisava ser paparicado,
precisava ouvir boas palavras
mas não tinha feito por merecer

Nada mais sólido e palpável
do que aquela solidão

nada mais subjetivo
do que a espera pela quebra
da monotonia do quarto escuro

nada mais insone
do que as imagens
arremedo de esperança

nada de pena de si mesmo
nem de ácool para aliviar sintomas
toda aquela dor no peito
era medalha pendurada
de honra ao mérito

terça-feira, 27 de março de 2012

Dois pássaros e um cachorro

Ilusão nem bem pousou
na palma da minha mão
e já bateu asas.

Pior, faz o Amor,
esse pássaro arisco.
Não aparece mais
nem para catar os grãos
de alpiste
que espalho na varanda.

Ainda bem que existe
uma cadelinha vira-latas,
que mora uns tempos comigo,
passa uns meses fora,
mas sempre retorna.
O nome dela é Paixão.
O único problema é
essa vira-latez:
basta um descuido
e lá se foi ela
embora outra vez.

sábado, 17 de março de 2012

No fim das contas

O sujeito
levava jeito
lavava a jato
enxugava a ferro
assinava em branco
pintava o sete
corava a cara
era o manda-chuva
tirava onda
morria de medo de avião
mas vivia no mundo da lua

De tempos em tempos,
mudava de casa
piscava pro olho da rua
namorava quem passava
casava com quem ria
dormia com quem chorava
acordava de cabeça cheia,
peito vazio

Fazia silêncio nas brigas,
gritava pedindo pra fazer as pazes
e se calava para ouvir vozes
do além,
do aquém,
do talvez,
de ninguém.

Sempre,
no fim das contas,
trocava o som pelo gesto
o todo pelo resto
o corpo do desejo
pelo rosto do beijo

No fim das contas,
lá pelas tantas,
trocava seis por meia dúzia,
fazia concha com as mãos
para colher pingos de chuva
e colocar os pingos nos is.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Encontros e perdas

O barco desnorteado
sem rumo
o barqueiro remou
para o sul

a vida desbotada
sem tons
o vivente se pintou
de azul

Sobreviveu
remou
achou o norte
o doce
e o sal

flertou com
a morte
chorou
com a lua
dormiu ao sol
sorriu na rua
para qualquer um

de qualquer jeito
caminhou

e fazia assim
toda vez que não
sabia aonde ir
saía por aí

até que um dia
se perdeu tanto de si
que não sabia mais voltar
para sempre estava só
e foi aí que se encontrou inteiro
para nunca mais.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Diálogo no ônibus III

- Por favor, o senhor pode sentar! 
- Ah, muito obrigado, meu filho! Eu agradeço, mas vou continuar de pé, não se preocupe.
 - Não, mas eu faço questão. Já me levantei para o senhor sentar!
 - Não, não, não! Eu vou continuar de pé! Está bom assim! E você está me chamando de velho? Puxa! Hoje em dia, ninguém mais respeita a gente! Que absurdo!

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Diálogo no ônibus II

- Isaura, sabia que descobriram um remédio que cura a Aids?
- Sério?
- Sim. Vi no Fantástico.
- E que remédio é esse, Josélia?
- Chama-se Paratessamol.
- Paracetamol.
- Ah, você também viu o Fantástico?
- Não, Josélia. O remédio se chama Paracetamol. E não cura a Aids. É remédio para dengue.
- Ah, quer dizer que dengue agora já tem cura?
- Não.
- Mas, você não falou que Paratessamol cura a dengue?
- É paracetamol.
- Isso. Esse nome aí mesmo.
- Mas paracetamol não cura a dengue. Apenas alivia os sintomas.
- Ah... Mas, por que será que eu me confundi? A reportagem falava sobre Aids e esse tal de paratessamol, tenho certeza.
- É paracetamol.
- Ah, quer saber de uma coisa? Vamos mudar de assunto. Não aguento mais falar de televisão. Mas, aqui: você sabia que minha mãe estava com dengue?

Diálogo no ônibus

- Oi
- Oi
- Você está morando aqui agora?
- Sempre morei.
- Uai, é?
- Sim
- Achei que você tivesse ido para os Estados Unidos
- Não
- Mas, fiquei sabendo que você tinha sido deportado!
- Não, não fui. Nunca saí do Brasil.
- Não?
- Não.
- Você não é o Marcos, filho da Dona Zefa?
- Não. Meu nome é Pedro.
- Puxa! Por que não falou antes? Pensei que você era o Marcos
- Uai, você não perguntou...

Quem sou eu

Minha foto
Na rádio, sou o narrador de futebol, Carlos Augusto. Na TV, sou o repórter e apresentador Carlos Albuquerque. Aqui, neste blog, pretendo resolver essa "crise de identidade" e juntar os dois "Carlos"! Mas, no fundo, sou aprendiz, eternamente aprendiz! Sou filho da terra, de todas as terras que formam o planeta, de todas as substâncias que formam o universo. Sou irmão de todos os seres. Sou o pai da Luíza.